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Italiano Bolognesi traz a Curitiba cidade cyberpunk

6 de outubro de 2017

Marco Bolognesi_The hope of Hadar.

 

O multiartista italiano Marco Bolognesi, conhecido na Europa pelo ambicioso projeto da cidade cyberpunk Sendai City: the Truth, trouxe para a Bienal de Curitiba a série fotográfica “Techno Mutant”, criada, segundo ele, para refletir sobre o cenário de confronto do mundo contemporâneo. A série é um novo capítulo sobre os confrontos de sua cidade imaginária, desta vez encarnando o conflito corporal. As impressionantes fotografias compõem a sala que ocupa no Museu Oscar Niemeyer (MON), que reúne as principais exposições da Bienal com curadoria de Massimo Scaringella.

O artista multimídia se vale de várias formas de expressão, do desenho até a pintura, do cinema à fotografia e ao vídeo. Na exposição que trouxe a Curitiba, a cor preta é a protagonista das fotografias (100×70 cm), e com ela o artista apaga as fronteiras entre o espaço e o sujeito em um conflito crescente, até o ponto em que o indivíduo, a fim de sobreviver, é forçado a sofrer mutações.

Para isso, incorpora elementos de sua pesquisa e, mais uma vez, escolhe trabalhar em modelos com objetos reciclados: “Eu tentei trabalhar com pistolas de água enquanto objetos de forma inofensiva e divertida que se referem à guerra de maneira lúdica e com elementos de uso comum, tais como tubos ou caixas elétricas, fáceis de serem encontrados em todas as casas de qualquer cidade do mundo”, conta Bolognesi.

A edição deste ano da Bienal de Curitiba parte do conceito “Antípodas – Diverso e Reverso” para homenagear a China, país diametralmente oposto ao Sul do Brasil. A mostra abre as portas em mais de uma centena de espaços culturais da cidade, trazendo trabalhos de artistas brasileiros e de 42 países dos cinco continentes. De 1.º de outubro deste ano até 25 de fevereiro de 2018, Curitiba se transforma na capital da arte contemporânea.

De acordo com o criador do conceito da Bienal, o curador Ticio Escobar, a ideia é refletir sobre a “diversidade” e os “opostos”, que não são apenas “uma fronteira entre os meios de expressão artística, mas também um limite entre culturas. Limites que nunca são definitivos e representam cruzamentos de ida e volta, encontros diversos e sinergias criadas a partir de comparações entre diferentes pontos de vista, distantes, e até mesmo contrários. De acordo com Deleuze: a transversalidade atua juntando diferenças.”

Para a mostra principal, o curador Massimo Scaringella selecionou uma gama diversificada de artistas, que inclui, além de Marco Bolognesi, Davide Boriani (Fundador do grupo histórico T), os finlandeses Tuomo Rosenlund & Johanna Pohjanviria e Hannu Palosuo, o americano Stevens Vaughn, o israelense Shay Frish e o marfinense Joachim K. Silue, entre outros.

A Bienal de Curitiba é realizada há 24 anos e é referência em arte contemporânea, reconhecida como um dos principais eventos de arte do circuito latino-americano. Nos cinco meses do evento são esperados mais de um milhão de visitantes. Tem realização do Ministério da Cultura, governo do Paraná e prefeitura de Curitiba.

Ficção científica

Marco Bolognesi explica que sua produção é direcionada à construção do Universo Bomar, um universo narrativo que imaginou e se tornou o recipiente ideal para todos os seus projetos. Ao misturar ficção científica e cyberpunk, máscaras e decorações tribais, avant-garde, ícones pop e arte erótica, e através da exploração do mundo que ele criou, pretende destacar os mecanismos e poderes que governam o presente.

Inspirado pela ficção científica, o trabalho do artista reflete um futuro possível, que vê o mundo contemporâneo transladado para um universo de megalópoles pós-punk e implementado, durante vinte anos de atividade, por meio de diferentes linguagens (fotografia, desenho, vídeo e instalações). Conforme ele, o confronto/encontro sempre teve um lugar que, ao contrário dos campos de batalha onde eram encenados na Antiguidade, hoje é consumida no espaço que representa o lugar contemporâneo: a cidade, o “contentor” por excelência deste conflito.

“Nossa cultura mostra a visão da verdade como a resposta para os acontecimentos contemporâneos da guerra, do terrorismo, especialmente o embate constante entre o Ocidente e o Oriente Médio, que não é apenas um choque de religiões, mas algo muito maior’”, afirma. Segundo ele, de fato, a sociedade de hoje está ligada ao conflito para manter o controle da realidade, uma realidade que não existe, mas que mesmo assim percebemos. A verdade, então, que, neste momento, deve justificar o choque, torna-se apenas um ponto de vista.

 Com estes ingredientes, o trabalho de descontextualização dos objetos e, consequentemente, do sujeito, permitiu que o artista criasse uma série de seres escuros à la ficção científica e em plena mutação, cujas alterações são fundamentais para suportar o peso do conflito incessante, dentro e fora deles. Neste sentido, de acordo com Bolognesi, a sobrevivência – e, portanto, a vida – nos obriga a transmutar-nos ao ponto de perder o que éramos.

Não surpreendentemente, os títulos das fotografias são inspirados por nomes de estrelas para lembrar as origens desses seres que, ao mesmo tempo, tornam-se o paradigma de um corpo que escapa, se derrete e se funde com o espaço em torno, ou seja, a cidade. Ao ver as fotos, então, o espectador de Curitiba testemunhará o mal-estar da sociedade contemporânea em conflito, em um universo onde o lugar é apagada pelo corpo e desaparece na cor preta.

Desde o início de sua carreira, tem-se concentrado no desenvolvimento da sua pesquisa artística a fim de criar um mundo paralelo futurista e fantástico, que ganha vida através do uso de técnicas diferentes: da fotografia ao desenho, passando por vídeos e instalações.

 Carreira internacional

 Marco Bolognesi nasceu em Bolonha em 1971, mas desenvolveu sua carreira em Londres, Roma e Viena antes de se estabelecer recentemente em Bolonha. Em Londres recebeu o prêmio The Artist in Residence no Instituto Cultural Italiano, lançando sua carreira internacional. Suas obras foram exibidas em Londres, Viena, Budapeste, Miami, Nova York, Chicago, Cingapura e Pequim. Instalado em Londres, ele ganhou em 2002 o The Artist in Residence Award pelo Instituto Italiano de Cultura, graças ao qual, no ano seguinte, realizou a exposição “Woodland”, uma exposição centrada na questão dos organismos geneticamente modificados, que contou com a colaboração de grandes estilistas como Giorgio Armani, Vivienne Westwood, Dolce & Ga bbana e muitos outros.

 Em 2006, fundou sua fábrica em Londres, a Bomar Edition, e começou uma colaboração artística com a proprietária de galerias americana Cynthia Corbett; enquanto isso, na Itália, ela trabalha com a Galleria Carini e Donatini de San Giovanni Valdarno, com Paolo Nanni e com a Galleria Contemporanea di Pescara. Em 2008, seu curta-metragem “Buraco negro”, centrado na questão da hibridização e dos ciborgues, ganhou a ‘Indie Short Film Competition na Flórida e, no mesmo ano, o curador Lorenzo Canova insere-o na Co llezione Farnesina Experimenta.

Em 2009, começou uma longa colaboração com a proprietária de galerias anglo-chinesa Olyvia Kwok na Olivia Fine Art Gallery de Londres e, publica pela Einaudi, “Protocolo”, quadrinho de gênero cyberpunk, trabalho a quatro mãos feito com o escritor Carlo Lucarelli.

Em 2012, o evento Fotografia Europeia apresentou “Humanescape”, projeto artístico com curadoria de Walter Guadagninie, em 2014, o curador Sandro Parmiggiani selecionou-o para a exposição organizada pela Fondazione Palazzo Magnani em Reggio Emilia para a celebração do aniversário de nascimento de Ludovico Ariosto, para a qual Bolognesi realizou uma reinterpretação cyberpunk de alguns dos personagens do Orlando Furioso.

 No mesmo ano, em colaboração com o crítico e curador Valerio Dehò, iniciou o versátil projeto “Sendai City” – que se desenvolve em três exposições individuais entre o final de 2014 e o primeiro semestre de 2015 no Kunst Meran, no Abc em Bolonha e no PAN em Nápoles – no qual é apresentado o universo visual e narrativo criado por Bolognesi, um mundo em contínuo work in progress, inspirado pela cultura pós-punk e pela ficção científica de tipo social.

Novamente, em 2015, o editor Massimo Scaringella selecionou-o para o saguão Perspectivas Italianas da Bienal del Fin del Mundo no Chile e na Argentina e, no ano seguinte, expõe na Plastik Factory de Pequimdurante a Bienal Itália-China. No limiar de 2017, chega em Bolonha para dar vida a um novo espaço, o Bomar Estúdio Srl, dedicado à produção e distribuição de vídeo-arte, documentários e filmes experimentais em geral, além de participar da coletiva Our Place in Space no Palazzo Cavalli Franchetti (Veneza), com curadoria de Nota Antonella e Anna Caterina Bellati e em colaboração com a Agência Espacial Europeia (ESA) e a NASA,com a obra Mock-up. Em maio, o curta-metragem “Blue Unnatural” foi exibido no Future Film Festival de Bolonha e noIbrida Festival de Forlì.

 Bienal de Veneza

Massimo Scaringella é um curador independente de arte contemporânea e organizador de eventos culturais. Durante mais de trinta anos de atividade na Itália e no exterior, ele apresentou muitos artistas italianos e estrangeiros, cuidando e cooperando em mais de 250 exposições de arte contemporânea em 40 países. Em constante contato com diferentes realidades e culturas locais, ele criou uma ponte de intercâmbio entre a arte italiana e o resto do mundo, especialmente com a América Latina, onde foi Diretor Artístico da 4ª edição da Bienal do Fim do Mundo 2014/2015. Diretor e fundador da ars maxjer contemporânea – projetos culturais de vanguarda, em 2017 foi nomeado curador do Pavilhão Nacional da Costa do Marfim na 57ª Bienal Internacional de Arte em Veneza.

 

 

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